Foi lançado o filme sobre a vida da ex-prostituta Bruna Surfistinha e, rapidamente, diversos colegas já se apressaram para verem o filme e se aprofundarem na intimidade nada íntima da personagem principal. Surpresas ficaram várias pessoas ao me ouvirem dizer que esse filme eu não assistiria em hipótese alguma, pois o pouco que eu conheço da vida da Rachel Pacheco não justifica a sua transformação em celebridade.
Chamam-me de conservadora, preconceituosa e tantos outros nomes, mas a verdade é que esse filme é um desrespeito com diversas pessoas que estão na realidade da prostituição porque se meteram numa furada. A vida se transformou numa desgraça por causa da vida "profana". Aí, surge uma menina de classe média alta que decide seguir este caminho, por que? A vida estava sem graça? Entediante? Não valia o esforço para seguir outros rumos? Não existia outros rumos? Oras, não me importa os motivos da Rachel Pacheco ter optado por escolher o caminho da venda do próprio corpo para emergir (!) como pessoa. O problema não é ser puta. O problema é ter sido uma puta, que a única coisa que fez na vida foi ser puta. Uma puta digna da atenção da globo (rá... quem disse que quem tem boca vai à roma, não conhecia os contatos!).
Ser célebre, para mim, é ter motivos para ser lembrado e ovacionado por atitudes dignas de respeito e proliferação e não porque as "tetinhas da Débora Secco aparecerão no telão".
Assunto que me faz lembrar de uma crônica da Fernando Pessoa:
Crônica da Vida que Passa
"Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. (...)"
Depois, num dia qualquer, a sociedade levanta os olhos e tenta entender porque os valores estão tão distorcidos... Porque ninguém mais tem valores ou princípios.

