domingo, 5 de dezembro de 2010

Brazil



Eu quero um Brazil com "z".

Todo brasileiro sabe como é e como funciona o Brasil. Nós já escolhemos nossos representantes esperando que roubem menos ou que roubem, mas façam alguma coisa em retorno! Raramente alguma pessoa vota em um político acreditando fielmente e cegamente em sua honestidade.

Nenhum verdadeiro brasileiro espera de outro 100% de honestidade. Sabemos que ao sair de casa para ir a algum hospital do SUS enfrentaremos uma fila imensa para ser atendido - correndo o risco de não ser ou de ser mal atendido. Vamos a algum órgão público para resolver algum problema e corriqueiramente nos acostumamos a voltar para casa com mais problemas ou estressados por não conseguir resolvê-lo ou por ter precisado brigar com alguém para conseguir. Em resumo, nada funciona como deveria funcionar.

Sabemos disso. Acostumamos com isso. Somos brasileiros e nosso jeito de ser é tão especial que virou adjetivo: 'jeitinho brasileiro'. Somos seres naturalmente muito versáteis, pois necessitamos ser. Nossa realidade nos obriga a ser.

Mas nada funciona. Tudo continua a não funcionar, independente da infinidade de jeitinhos que podemos inventar para contornar uma situação. Daí eu me lembro do Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade. O livro é muito mais do que pretendo abordar aqui, é excelente, mas o que pretendo dizer que, apesar do caráter do título não ter sentido de índole, mas sim no sentido de característica; impressão, Macunaíma, o herói da nossa gente, reúne as característicos do brasileiro: preguiça e batalha.

Batalhamos para sobreviver a essa desigualdade e miséria que é o Brasil e, ao mesmo tempo, somos extremamente preguiçosos para mudar nossa realidade. Passivamente nos sujeitamos às mais variadas corrupções. Não temos a coragem de dar um pequeno passo que seja para expressar, denunciar, falar o que está errado e precisa mudar.

Somos acostumados a sermos paus-mandado. Reclamamos. Balbuciamos cabisbaixos alguma opinião insatisfeita, um singelo sentimento de revolta, mas a preguiça de tomar providências ou a vergonha de dar o grito nos enfia cada vez mais nessa lama.

Digo tudo isso motivada por uma situação de hoje:

Congestionamento do trânsito. Imensidão de carros e na fila ao lado da fila que eu estava tem um carro, preto, o motorista é um homem negro e no banco de carona tem uma mulher deitada no banco reclinado. O tal motorista sem qualquer vergonha, pudor ou consciência pega uma cerveja long neck e começa a beber, enquanto dirigia. Achei um absurdo, mas minha coragem e nem minha torpeza são suficientes para me fazer ir lá e falar poucas e boas para um sujeito 4 x 4.

Então me censurei. Porém, 300 metros a frente ou um pouco mais, havia um guarda de trânsito, teoricamente monitorando o trânsito. Aí resolvi descer do carro e fazer minha denúncia. Dizer que logo mais tinha uma pessoa descaradamente violando normas de trânsito e, por isso, deveria ser punido. O guarda com um ar de "vem cá, te conheço?", me olha nos olhos, abre um singelo sorriso e dispara: - Poderia eu sim ir lá e apenas multá-lo, porque não tenho meios para conduzi-lo até a delegacia, pois não temos aparelhos (bafômetro). Aí eu respondo que não sabia o que ele devia ou poderia fazer, mas que a minha parte eu fiz que era informar que uma pessoa estava dirigindo embriagada e que, muito provavelmente, seria ela responsável por tragédias no trânsito. Ele solta um sorriso novamente e diz: Sim, tem toda razão.

E assim saio da cena, retorno para o carro e fico espiando para o guarda, que conserta o boné, olha para um lado, para o outro, dá as costas para o congestionamento e assim fica, até ele sumir do meu campo de visão sem fazer nada!

Erro meu, que não anotei o nome do sujeito para denunciá-lo por negligência em alguma Corregedoria por aí. Seria o certo. Mas este é o nosso Brasil, com S.

Num Brazil com Z talvez as pessoas fossem mais ativas, menos preguiçosas e, talvez, as coisas fossem um pouco diferentes. Mais normais. Melhores.

Nenhum comentário: