terça-feira, 13 de abril de 2010

Até que...o diabo o parta

Esses dias eu estou sem o meu computador, porque ele resolveu morrer de vez. Daí, quando a amiga insônia aparecia, era a ele que eu recorria para matar o tempo até que o sono voltasse. Então, esses dias eu não tive outra opção a não ser recorrer a outras distrações na madrugada.
Ontem eu estava nesse dilema e liguei a televisão e não tinha nada de útil passando, daí me recorri aos livros da prateleira, e de todos eles tinha apenas um ainda não lido. Um livro que ganhei de uma tia lá de Minas, muito católica. O livro foi escrito pelo Padre Fábio de Melo e é chamado "Mulheres de Aço e de Flores". A princípio eu esqueci da existência desse livro, por imaginar que ele seria um daqueles livros religiosos que tentam lhe convencer dos benefícios e necessidades daquela religião ou meramente de auto-ajuda. Eu não tenho paciência e nenhuma inclinação para ler nenhum deles. Porém, ler livros, independente de qual seja o conteúdo, nunca é inválido, pelo contrário, cada um traz muitos benefícios. Foi o que fiz, deitei e me pus a lê-lo, e me surpreendi ao ver que o livro não é bem assim como eu tinha imaginado.
É um livro meio dividido em espécies de contos, cujo eu lírico é uma mulher. Eu, que não sigo uma sistemática contínua de leitura, li alguns "contos" sortidos, porém foi o último e o conto que dá nome ao livro que mais me chamou a atenção e quis transcrevê-lo a este blog. Pois, como num estudo de obras literárias que tínhamos no Ensino Médio, eu me pus a pensar qual seria a mensagem que o autor quis passar para os leitores. Não consegui identificar se é o preceito do casamento religioso de que "até a morte nos separe" ou o quê, ainda não identifiquei e estou até agora "matutando" se seria a "vontade de Deus" que se agisse daquela forma, ainda não cheguei a nenhuma conclusão
Enfim, lá vai.

De Aço e De Flores

Elviro não vale o feijão que come. Eu já disse que só estou com ele porque também não tenho um pingo de vergonha na cara. Eu não sei o que fazer. O amor que sinto por ele me cega.
Já vi traição, já vivi desprezo, fui humilhada em público e até esquecida por exatos dois meses na cama de um hospital, mas nada mudou dentro de mim.
Se eu considerar a conduta de Elviro, não me resta dúvida de que ele vai queimar no fogo do inferno. É nessa hora que eu perco a vontade de rezar pela minha salvação. Não sei se quero o paraíso sem Elviro. Caminhar pelos jardins do céu sem as mãos de Elviro segurando as minhas? Não sei se quero. O que sei é que a eternidade é coisa que me assusta. E se eu não gostar do céu? Teria de passar o resto do tempo reclamando sem palavras? Mas na eternidade não há tempo. Não gostar do céu já é uma forma de estar no inferno! Estou certa? Não sei. Só sei é que Elviro queimará no tacho do enxofre, o principal, e disso não tenho dúvidas. Só não sei se quero deixá-lo sozinho nesse momento. Aliás, não sei o que quero. Querer sem decifrar é querer dobrado, multiplicado.
Elviro entrou na minha vida pelo poder da força. Nunca me disse uma palavra de carinho. E mesmo assim eu o amo com devoção. Odeio também. Amo e odeio, tudo ao mesmo tempo. Amor e ódio. Não sei distinguir essas duas vielas. São paralelas. Olho para seu bigode, nervoso a gritar comigo e tenho vontade mordê-lo como uma cadela, até matá-lo. Mas no mesmo instante, o desejo é de colocar-lhe fraldas, como se ele fosse uma criança necessitada de colo, e levá-lo para passear na praça da matriz, num carrinho de bebê.
A arquitetura da minha alma é barroca. Sou fraca, sou forte, sou luz e sou sombra. Sou de aço, sou de flores e foi Elviro quem me desenhou assim. Niemeyer desenhou Brasília. Elviro desenhou a mim. O grande problema é que ele me fez a lápis. Tenho medo de que, tomado por um gesto de fúria, ele me apague de vez. A borracha ele tem nas mãos, e meus riscos são frágeis. Sou de grafite, sou de barro. Sou bonita, sou marmota. Sou de lata, sou de ouro, sou catedral, sou capelinha.
Lutei a vida inteira querendo vencer os cordões que me separaram de meus territórios. Alienada, vivi como terreno que não pôde ser construído só porque servia de quintal para uma casa principal. Sou o quintal de Elviro. Ele, a casa da frente, o sobrado vistoso, o garbo do jardim, o telhado avermelhado de tão vivo e os umbrais que sugerem honrarias.
Sou a horta de couve, o lugar onde a cebolinha cresce para virar tempero na carne. Mas não costumo me queixar. Minha arquitetura é assinada por Elviro. Ele sabe tudo de mim. Ele, o luthier cheio de destreza, e eu, seu violino. Nos seus braços eu pio fino. O meu acorde é menor. Sou dissonante, mas só por dentro. Por fora ando na linha. Elviro não. Ele prefere o descarrilamento, o descontrole dos afetos.
Sou muito paciente. Ele não presta. Eu sei. Eu também não presto. Se prestasse já teria ido embora com minha mala de roupa. Não sei prestar. Ele me roubou de mim. Ordinário! Trancou meu coração na sua torre de porcelana e não tenho coragem de quebrá-la porque a acho bela demais para ser destruída. As prisões têm os seus deslumbres. Eu encontrei os meus. Um aperto malicioso no braço na porta da sala, um sorriso indecente em tardes de sábado, o cheiro de cansaço depois do amor e a pérola falsa que ele insistia em presentear-me, roubar-me e devolver-me. Ele não sabia que eu sabia. - Perdeu de novo? - perguntava. Eu mentia. Sabia que ele havia escondido e depois fingiria ter comprado outra. Sou uma mulher de presente único. Pretéritos mais-que-imperfeitos na conjugação dos meus desalentos.
Elviro não vale o que come. Olho suas calças tão cuidadas e fico pensando por onde andaram. Calças que lavo como fossem vestes papais. Elas ali, no tanque, presas em minhas mãos, e depois, perdidas na multidão cujo nome não conheço. Isauras, Rosildas, Arletes. Não sei e não quero saber. Enquanto as calças estão em minhas mãos eu sou a dona do mundo. A vassala é rainha, ainda que por um instante.
Por vezes a conduta inesperada, o grito: - Não sou sua escrava! -. O grito dura pouco tempo. Uma meia dúzia de palavras miúdas de Elviro e já estou convencida de que devo morrer de amor por ele. Elviro sabe disso! Elviro sempre soube! Elviro sabe tudo. Ele me olha quando quer. E eu sempre deixei que fosse assim. Eu o quero sempre. Ele não. Amor de precariedades, mas amor. Há quem diga que não. Meu amor é barroco. Contrários que se encontram numa mesma quina de pilastra. O escuro no claro, a dor na fração de alegria e a linha reta na inconclusão da curva.
O céu é o destino dos mártires. E eu fui feita para o martírio. Mas há em mim uma confissão herética que me persegue dia e noite. Prefiro o inferno com Elviro ao céu sem o cretino. O que há de se fazer? O que há de se querer além do que possuo?
Esquisito demais. O amor é cego. Óculos não resolveriam o problema. É cegueira mesmo. Sem causa, sem solução. É diagnóstico que carrego na alma: sou condenada. Dizer-lhe que vá embora é o mesmo que me apunhalar o peito. Eu o aceito infiel, porque é o único jeito de tê-lo. Não posso rezar a novena que não sei. Não há memória que me reconduza a uma razão em que eu possa apoiar minhas mãos trêmulas. Meu coração apanhou demais a vida inteira e hoje não saberia viver sem essas batidas contrárias. Eu não tenho escadaria onde possa apoiar meus pés e fingir que espero por algum milagre. Não há nada que eu possa esperar de Elviro, senão a possibilidade do seu retornar todos os dias. Por vezes ele vem, por vezes não. Olhos atentos, mais que o comum. Lábios tão cheios de fúria, procurando em mim o que sempre foi dele. Proprietário, dono, guardião e capataz.
Quando ele vem, a noite inteira é de sono quebrado. Vê-lo dormir é ritual religioso. Velo o tempo que posso, o tempo que possuo. Quando ele não vem, a noite inteira de choro silencioso. Vela acesa contrastando a escuridão do quarto.
Quando ele vem, eu não durmo. Quando ele não vem, eu não durmo também. Vigílias por razões diversas. O amor é assim: contradição. O amor é barroco. Por vezes a dor, por vezes a sensação de vida que já é eterna.
Elviro é o pórtico do meu templo, ele mesmo, o autêntico e revelado, meu deus pagão. Rezo a ele constantemente para que tenha piedade de mim, e que não me abandone por nada nessa vida. Ele olha com desdém, como um rei ao seu súdito.
Já quis acender vela de sete dias. Implorar para que Deus fizesse o impossível: libertar-me desse Egito. Mas o sopro ficou pronto na boca, antes mesmo que o pavio fosse aceso.
Restam-me as cebolas, o mar vermelho sem abertura e a praga de gafanhotos que vivem rondando minha casa e meu marido. Gafanhotos fêmeos, de saltos altos e tinta nos cabelos.
O recurso viável é prender-me na consolação que os beijos me trazem. Beijos de muitas, mas não importa. Porto-me como se fosse única, a eleita, a rainha coroada.
Um pavio queimando cera não conserta conduta de homem infiel. Melhor seria se houvesse reza forte para curar amor de mulher. Quem sabe assim eu poria fogo nas calças de Elviro, em vez de perfumá-las. Quem sabe salgaria o seu feijão com minhas lágrimas e o privaria de seu prazer no meio do dia.
Quem sabe assim eu sairia de casa, batendo portas e gritando desaforos cheios de voz e expressão. Mas não. Deixo assim. O bule de café sempre pronto, a xícara sem plumas de panos de prato, a mesa posta, o cordeico com alecrim, os sabores de Elviro.
Eu sou barroca. Elviro é gótico. A beleza dele é minha inveja, e a minha devotada fidelidade é seu cabresto. Elviro não sabe que sei, e às vezes me esqueço disso, mas Elviro é meu cão. Sarnento, pulguento e vira-lata, mas é meu. Tenho a coleira, mas não a ponho. Cachorro vira-lata não sabe viver no cativeiro. Eu deixo que ele vá quando quer, porque sei que ele volta. E quando volta há sempre uma ração de amor preparada. Ração farta, vigorosa, substanciosa.
Elviro está acabando com os meus dias de vida, mas o meu pote de ração eu não deixo esvaziar nunca. Sou de aço, não quebro fácil.

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E aí? Quando eu chegar em alguma conclusão sobre este texto, será o próximo post.

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